quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Saudade x saudosismo

Há alguns dias uma amiga dos tempos do colégio postou numa rede social uma foto superdesfocada de uma moto e um grupo de pessoas. A moto em questão era a Yamaha RX80 Carona da família, à época sob os meus cuidados...por assim dizer.
Bem, aquela desfocada foto despertou um sentimento gozado. O primeiro conceito que me vem à cabeça é "nostalgia". Se nostalgia puder ser descrita como um misto de saudade e saudosismo, então é isso. Mas acho que não.
O saudosista tem algo de quem tem coisas mal resolvidas no passado, passa a noção de estar sempre querendo voltar e reviver o passado. Passado serve para ser lembrado, não revivido. Qualquer um que já tenha tentado fazê-lo percebeu que não só é impossível (e não estou falando de viagem no tempo), como é inútil e, convenhamos, uma ideia bem idiota. Ter saudades de tempos idos, de coisas vividas é uma coisa boa. Aquela foto meu despertou saudade daqueles tempos. Querer voltar no tempo, ou pior, viver no passado, não tem nada de bom. Explico. Querer reviver o passado significa querer fazer coisas novamente não porque eram boas, mas porque alguma coisa não ficou bem resolvida. Saudade nada tem a ver com isso.
Quem não teve "aquelas" férias de verão, aquele verão memorável? Pois é. Quem se lembra do verão seguinte? Pouca gente, pois para muitos o verão anterior tornou-se inigualável, condenando ao esquecimento sumário os verões seguintes, por melhores que tenham sido. Isso acontece porque temos a tendência a comparar e sermos saudosistas, querendo repetir o que foi bom, o que deu certo uma vez. Isso é a coisa mais estúpida do mundo. Quem vive pensando dessa forma deixa de ter novas (e boas) experiências e novas (e memoráveis) lembranças. Exemplo disso? Ué, gente que vai para a mesma praia ano após ano, só porque a primeira vez foi legal. Ok, aqui temos um intruso, um elementozinho de "medo do desconhecido", mas isso é outro papo.
Precisamos aprender que boas lembranças são só isso, boas lembranças. Devemos sentir saudades de coisas que experimentamos, de fatos que vivenciamos, de pessoas que conhecemos. Querer que o tempo volte para podermos repetir aquilo que foi bom, legal, é fechar os olhos e a mente para o presente e, pior, para o futuro.
O lance da foto?
Eu estava com uma turma nova de amigos, do segundo colegial, andava de moto sempre que podia, muita coisa legal aconteceu, o verão daquele ano (85-86) foi memorável. E não, não me lembro do verão seguinte.

A sujeira e a fiscalização

Inteligência. A falta dela pode ser apontada como culpada por vários exemplos de má administração Brasil afora. Não é exclusividade nossa, mas vou-me ater à realidade que vivo.
Em Brasília, há algum tempo, nos tempos do pilantrão José Roberto Arruda, foi editada uma lei semelhante à Lei da Cidade Limpa, de São Paulo, embora não tão radical. Funcionou durante um tempo e atuou sobretudo com relação a faixas de propaganda afixadas em locais proibidos. Não durou.
O que se vê pela cidade hoje é a sujeira visual que toma conta de tudo, dos pontos de ônibus às rotatórias nas áreas comerciais. Vê-se de tudo: faixas que anunciam a venda de um apartamento, sushi, festas e shows, cartazes colados nas placas de trânsito, postes e paredes, caminhões-grua com faixas gigantescas que, se não são fixas, são do tamanho de um outdoor. Estes caminhões, aliás, ficam estacionados em qualquer lugar, inclusive sobre canteiros. E nada acontece.
Não faz muito tempo vi um rapaz pregando cartazes de uma cartomante, com cola, nas placas que indicam os edifícios nas superquadras da cidade. Em plena luz do dia. Tem faixas que são recolhidas pelos "donos" ao fim do dia, só para serem recolocadas no dia seguinte. A AGEFIS, Agência Fiscalizadora do DF, diz em seu site que em 2012 quase 29 mil faixas foram retiradas das ruas, com 955 responsáveis identificados e 414 multas emitidas (dados de alguns meses atrás). É pouco. A indústria das faixas lucra horrores com isso e as ruas continuam cheias delas. E falo só sobre o Plano Piloto. Nas satélites é pior, pois elas se parecem com cidades do interior, onde tudo pode.
A mesma AGEFIS alega não ter gente suficiente para realizar o trabalho.  Até pode ser, mas a meu ver, alguns fiscais de moto, equipados com smartfones poderiam identificar e fotografar essas faixas enquanto outro grupo trabalharia na identificação dos responsáveis e na emissão de notificações e multas. E acho que as empresas que fazem a divulgação deveriam igualmente ser responsabilizadas. Veja bem: a empresa A organiza um show na cidade. Contrata a empresa B para produzir material e fazer a divulgação do evento. Esta manda gente para as ruas para distribuir panfletos nos cruzamentos - atividade que não me incomoda - e colar cartazes. Estes são fixados em qualquer lugar, sem o menor critério. Nesses casos, similares ao das cartomantes, para citar um exemplo, acho que a empresa de divulgação deve ser co-responsabilizada. E multa de 300 a 1000 reais, convenhamos, são muito levinhas, pois as cópias mal-feitas de Mãe Dinah continuam a sujar a cidade. Impunes, ao que parece.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Letra da Semana

Depois de algumas semanas sem letras, voltemos com os mexicanos do Cafe Tacvba.


EL METRO
(Cafe Tacvba)

Me metí en un vagón del Metro
Me meti num vagão do metrô
Y no he podido salir de aqui
E não consegui sair daqui
Llevo más de tres o cuatro meses viviendo acá en el subsuelo
Já faz mais de três ou quatro que vivo aqui no subsolo
En el Metro
No metrô

Zocalo, Hidalgo, Chabacano he cruzado un millón de veces
Zocalo, Hidalgo, Chabacano já cruzei um milhão de vezes
He querido salir por la puerta
Quis sair pela porta
Pero siempre hay alguien que empuja (para adentro)
Mas sempre tem alguém que empurra (para dentro) 

Refrão
Y cuando en las noches penso yo en ti
E quando à noite eu penso em ti
Sé que tu te acuerdas de mi
Sei que tu te lembras de mim
Pero aqui atrapado en este vagón
Mas preso aqui neste vagão
No sé si volveré a salir
Não sei se voltarei a sair

Como pastillas, paletones, chocolates, chicles y salvavidas
Como pastilhas, pirulitos, chocolates, chicletes e salva-vidas (drops) 
Tengo ya seis juegos de agujas, ocho cuters y encendedores (de sobra)
Já tenho seis jogos de agulhas, oito cortadores e isqueiros (de sobra)
Creo que me ha crecido ya el pelo con la barba y las arrugas
Acho que já me cresceu o cabelo, com a barba e as verrugas
No sé cuando es de dia y de noche
Não sei quando é de dia ou de noite
No sé si llevo cien años (aqui dentro)
Não sei se já faz cem anos (aqui dentro)

Refrão

Y hay veces que te empiezo a extrañar
E há vezes em que começo a sentir saudades de ti
Y me da ganas de llorar
E me dá vontade de chorar
Pues tu cara no puedo recordar
Pois da tua cara não consigo me lembrar
Y no sé si te vuelvo a besar.
E não sei se voltarei a te beijar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Buenos Aires, conclusão

First things first. Nós gostamos de Buenos Aires. A cidade é agradável, apesar do calor, fácil de andar pois é plana.
BsAs é hoje uma cidade cara. O câmbio oficial - e os índices de inflação - são mantidos artificialmente pelo governo de Cristina Kirchner, prática condenada pela comunidade mundial e que o país já foi instado a abandonar. A realidade das ruas é bem mais dura. Dólares, euros e reais são disputados ferrenhamente. O excesso de restrições às importações prejudica sobremaneira o comércio e a indústria locais. Uma refeição simples pode bater na casa de R$ 100,00 para duas pessoas. Facilmente batível em relação custo-benefício em qualquer lugar do Brasil. Mas e as compras? Não vimos grandes diferenças de preços em relação ao Brasil. Por outro lado não pesquisamos em áreas consideradas de comércio mais barato, nos ativemos apenas à Calle Florida e suas imediações. De qualquer forma, a viagem saiu muito mais cara do que havíamos planejado.
Os duty frees do país, entretanto, tem o ótimo hábito de vender produtos a preços de Estados Unidos, ou próximos deles, pelo menos.
A cidade sofre com uma certa insegurança. Exemplo: em restaurantes, somos instruídos pelos garçons a não deixar carteiras ou celulares sobre a mesa. Os trens do Subte, em dias úteis, são locais preferidos por batedores de carteira, que usam de métodos elaborados e raramente agem sozinhos. Bairros como a Boca são recomendáveis para turistas desde que não se saia das proximidades do Caminito. O mesmo vale para as redondezas da Bombonera. A área da estação de trem foi revitalizada, exceto em sua parte traseira, onde há uma enorme e - dizem - perigosa favela.
É impressionante que, com todas as maluquices administrativas pelas quais o país passou nas últimas décadas, ainda haja tantos negócios longevos, que sobrevivem pela fama de qualidade de seus serviços/produtos. A maioria desses negócios é de restaurantes como o Chiquilín, a Pizzaria Güerrín e o café El Vesúvio, este já completando 100 anos. Andando pelo Microcentro é possível encontrar muitos cafés e restaurantes abertos nos anos 30, por exemplo. Difícil errar com qualquer um deles.
É inegável a influência da arquitetura européia na construção da cidade. Em vários bairros é muito fácil imaginar-se numa rua qualquer de Paris. Bairros como Recoleta, Retiro e Palermo são ótimos exemplos disso.
A cidade é razoavelmente limpa - bem limpa em alguns lugares e suja em outros. O Subte, como já disse, pede uma atualização há muito tempo, principalmente porque vai completar 100 anos em 2013. O sistema de ônibus parece eficiente e há táxis em abundância. Vale ressaltar a qualidade do asfalto na maioria das ruas. Nesse quesito temos muito o que aprender.
O famoso Puerto Madero, para mim, tem coisas boas e coisas não tão boas. Honestamente eu não abriria mão de um grande apartamento na Recoleta para morar em PM. O projeto de revitalização das docas do Porto que nunca resolveu muita coisa foi bem executado mas a meu ver apresenta falhas. E o que observei é o mesmo que observo em qualquer empreendimento imobiliário moderno aqui em Brasília: paisagismo em detrimento da arborização. Falta sombra, em outras palavras. Evitamos sair à noite por ali, para comer, pois quase todos os guias indicam ser um local para turistas. Há algumas exceções que podem ser descobertas em sites locais, como o Blog del Gordito, que lista alguns restaurantes que mesmo os locais frequentam na região.
Enfim, BsAs é uma cidade que posso recomendar com segurança. Evite, apenas, em feriados como o Natal ou Ano Novo, quando fica realmente complicado.
E seja um bom turista. Aprenda algumas palavras em espanhol - é simpático e bem-vindo - como "buenos dias" e "gracias". Cumprimentar e agradecer são coisas das quais muitos turistas deixam de praticar em países que visitam. Infelizmente constatei ao longo dos anos e muitas viagens que nós brasileiros somos mestres no assunto. Mesmo que os hermanos porteños insistam em falar portunhol, inicie ou encerre a conversa na língua deles. É simpático e é a coisa certa a fazer.



IBILCE: 60 anos da minha Alma Mater

Escrevi a crônica abaixo, a pedido da amiga Nilce, atual editora da revista Notícias Ibilce, por ocasião dos 60 anos do nosso querido In...