quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Grumpy Old Biker

Ou, "velho motociclista rabugento". Estava em dúvida se colocava esta postagem no VW-Borges, mas vou continuar aqui mesmo com a verborragia reclamona.
O país está há alguns anos se "preparando" para a Copa. Não, não vou entrar na seara da reclamação política, do uso indiscriminado e criminoso de verbas públicas, do desperdício, da falta de hospitais, do caos dos aeroportos e das obras que deveriam estar prontas e sequer saíram do papel. Vou me situar aqui, bem pertinho, bem onde meu dia-a-dia é afetado pela incompetência da administração pública. Já falei mal das obras de recuperação asfáltica que há meses vem acontecendo em Brasília. Me espantei com a péssima qualidade do serviço executado principalmente na avenida W3 que, para quem não conhece, é uma das principais artérias da cidade, ao longo da qual é possível encontrar uma infinidade de diferentes tipos de comércio, de sedes de órgãos públicos e por aí afora. É inegável a importância dessa avenida. Há alguns anos, a W3 Norte era um grande estacionamento, com centenas de revendedoras de carros usados. Não havia onde estacionar e o trânsito era um caos. Bem, essas lojas foram todas "convidadas" a se retirar dali para uma área fora da cidade, hoje conhecida como Cidade do Automóvel. Uma das melhores decisões, pois a W3 Norte adquiriu outro aspecto. Pois bem. As obras de "recapeamento" consistiam em espalhar um arremedo de lama asfáltica sobre o pavimento já não muito bom e cheio de buracos e falhas, sem sequer passar um rolo compressor por cima. Nada. O resultado é que o asfalto tem sido "alisado" pelos próprios veículos em trânsito. Desnecessário dizer que o pavimento ficou todo estriado e cheio de ondulações, particularmente perigoso para quem anda de motocicleta. Essas estrias e ondulações, ainda por cima, acumulam água da chuva, que não tem como nem para onde escorrer.
Pensei que se aquilo era o que seria feito no resto da cidade, estávamos fritos. Bem, não foi. Toda a área central e as áreas residenciais estão recebendo piso novo e está sendo razoavelmente bem feito. Não está ótimo. Emendas ainda são visíveis, degraus e outros pequenos problemas podem ser vistos aqui e ali. Mas pelo menos está sendo mais caprichado do que foi o serviço na W3.
Mas nem tudo são flores. Não senhor. Bocas de lobo e tampas de bueiros não são removidas e reniveladas quando a nova camada do pavimento é colocada. A camada anterior só foi removida em locais onde as ondulações eram muito acentuadas e onde já havia remendos sobre remendos. Nos demais, só uma nova camada de asfalto. O problema é que as bocas de lobo formam depressões que, se são um problema sério para carros, para motocicletas são fatais. É tombo na certa. E as tampas de bueiros que ficam no meio das ruas são um caso mais grave, pois elas são - quando o são - niveladas com concreto.
Tampa recém-nivelada em pista recém-recapeada. Pista do meio,
L2 Norte, na altura da 405.
Ora, não é preciso ser engenheiro para saber que a dilatação desses dois materiais, concreto e asfalto, é muito diferente. Daí que não demora muito para os problemas aparecerem. As concessionárias dizem que os nivelamentos serão feitos, e realmente o são, em alguns locais, mas bem depois.
Esta aí fica em pleno setor de autarquias, bem ali atrás do Museu da República. Essa cratera está assim há muito, muito tempo. Fica bem no meio da pista e os desavisados sempre caem nela. Imagina o estrago se você estiver de moto? Quer ver onde ela fica?
Bem aí. Essa via, a S2 passa por trás da Esplanada, entre os ministérios e os anexos, e vai até a W3. Tem MUITO movimento.
As vias são entregues com o asfalto ainda úmido, semi-derretido e ficam sem sinalização horizontal por semanas. Os retornos nem sempre são feitos junto com as vias. E aí os motoristas ficam completamente desorientados e um festival de absurdos começa a acontecer. Sim, falta de preparo dos motoristas e motociclistas, mas não vou entrar nesse assunto agora.
Ora, é tão difícil assim, no planejamento da obra, incluir todos os serviços necessários? E as licitações, o que dizem? Não preveem esse tipo de coisa? E os fiscais de contrato, onde estão, que não estão se certificando de que os serviços estejam sendo executados a contento? Vai ser preciso o quê? Alguém se arrebentar numa dessas armadilhas urbanas e processar o Estado? Todos esses problemas ficam ainda mais graves quando se circula de moto. Recentemente um motociclista ganhou na justiça direito a indenização por falta de sinalização em um obstáculo. Ganhou pouco mais de R$ 200. Suficientes para reparar sua moto. Pouco, mas é um começo.
Nenhum governo brasileiro, estadual, municipal ou o que quer que seja, liga a mínima para o fato de termos uma frota gigantesca de motos e que as ruas não podem ser pensadas somente para automóveis e ônibus. Faixas pintadas indiscriminadamente com tinta-sabão - que ficam incrivelmente lisas quando molhadas - além das já citadas tampas de bueiros desniveladas, guard-rails assassinos e por aí vai, são todos armadilhas às quais nós, motociclistas PAGANTES DE IMPOSTOS, estamos sujeitos. Mas somos cidadãos de segunda classe para essas "otoridades". Assim como podem ser considerados todos os pagantes de impostos que recebem serviços ruins e obras mal-feitas, vide a tragédia que foi o rompimento da adutora que resultou em um funcionário morto e quatro feridos, e ainda tem que aguentar propaganda de governo mostrando todas as "maravilhas" feitas por ele. Mesmo que sejam visíveis só para os marqueteiros.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A hora mais escura

Ninguém questiona a beleza de Brasília. Uma beleza artificial, alguns podem argumentar, mas beleza de qualquer forma. Quem se aventura além da Esplanada encontra uma cidade de verde exuberante, de curiosidades em cada canto. Mas, cada vez mais, uma coisa me entristece e angustia: Brasília não sabe se mostrar à noite. Basta uma voltinha para constatar o fato de que a iluminação de Brasília é antiquada. Não falo das lâmpadas utilizadas nas vias públicas, mas do conjunto todo. Os postes que margeiam as grandes avenidas não são dignos de iluminar sequer cidades pequenas do interior. A bela arquitetura da cidade desaparece à noite, escondida em prédios às escuras, assim como os monumentos. A ampla esplanada tem uma mancha escura no seu canteiro central.
As cúpulas do Congresso tiveram sua iluminação original, cuidadosamente planejada, substituída por uma iluminação que não lhe faz justiça, cheia de sombras.
A "nova" iluminação estraga as formas das cúpulas. Engraçado que isso
o IPHAN não vê.
Os edifícios gêmeos, logo atrás das cúpulas, igualmente tem suas formas inconfundíveis escondidas depois do pôr-do-sol. Nada de iluminação projetada para destacar o que é um marco daquela área da cidade. O Palácio do Planalto consegue escapar, mas por pouco. O Palácio Itamaraty ainda conserva o projeto original de iluminação e é um dos poucos que se pode admirar à noite.
Uma ilha de luz num mar de escuridão
Seu vizinho de frente, o Palácio da Justiça, fica completamente às escuras, com seus belos arcos e cascatas (desligadas) escondidos na penumbra.
A aparente luminosidade é fruto apenas fruto da longa exposição,
não há iluminação pensada para destacar os arcos.
Nenhum poste de luz ilumina o canteiro central, pois a iluminação ainda é a mesma da inauguração: uma fileira de postes baixos, à direita da pista. E só. O GDF está substituindo esses postes por novos com iluminação por LED, mas eles continuam apenas de um lado da via. Lá para a frente, depois do Buriti, a coisa fica pior. O que de dia é um belo bosque de mangueiras, à noite vira um breu só. Perfeito para a malandragem se esconder. Dali para a frente só o escuro. Mesmo a novíssima ciclovia não pode ser utilizada à noite, pois não foi planejada uma iluminação para ela.
Acredite, uma ciclovia passa bem aqui.
E erra quem pensa que são só as áreas e os edifícios públicos que desaparecem à noite. Os setores hoteleiros, o de autarquias norte e sul, todos eles cheios de edifícios modernos e de bela arquitetura, simplesmente não contam com um spotzinho sequer, iluminando suas fachadas. O resultado disso são quadras inteiras escuras como se na Etiópia estivessem. Nada digno de uma "moderna" capital de país. Mesmo a torre de TV, na região central, deve receber uma iluminação adequada somente agora, mais de 50 anos depois de sua inauguração, mas está tão às escuras que nem deu para fotografar. A avenida W3, à noite, apesar de contar com iluminação, sofre com a falta de atualização. As árvores cresceram o suficiente para esconder os postes, que como já mencionei são baixos. É de espantar que não aconteçam mais atropelamentos por ali, pois não se vê muito à noite. Em alguns pontos novos postes, ligeiramente mais altos, estão sendo instalados, mas não vão resolver nada, pois estão sendo posicionados no mesmo lugar que os antigos, enquanto que os canteiros centrais continuarão dependendo da iluminação "do outro lado da rua". Isso tudo sem falar nas dezenas de lâmpadas queimadas, por desgaste ou por depredação.
Não acredito que plantar postes centrais na Esplanada sejam uma ofensa ao projeto da cidade. Custo a acreditar que alguém possa encontrar óbices nessa "modificação". Custo mais ainda a acreditar que Lúcio Costa tenha pensado numa cidade invisível à noite, e que Niemeyer não quisesse que seus prédios fossem vistos somente à luz do dia. Uma tristeza que espero seja sanada o mais rapidamente possível, Brasília merece que todo esse potencial seja explorado.

IBILCE: 60 anos da minha Alma Mater

Escrevi a crônica abaixo, a pedido da amiga Nilce, atual editora da revista Notícias Ibilce, por ocasião dos 60 anos do nosso querido In...