quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preto ou branco

Odeio polarização. Odeio radicalização.
Nas últimas semanas recebemos doses exageradas disso. Sim, estou falando de eleições e da imbecilização disfarçada de politização espalhada aos quatro ventos e em todos os bits e bytes da internet. Chegou um ponto em que ficar em dúvida não é permitido. Não, você tem que escolher: bom ou mau. Bem ou mal. Vermelho ou azul. Situação ou oposição. Preto ou branco. Vai ou fica. Não, mas..."Não tem mas, você tem que se posicionar!", esbravejam uns e outros.
É, democracia virou um palavrão. E os que o preferem com mais frequência e intensidade se esquecem de que, se vivêssemos mesmo em uma democracia, não teríamos que escolher entre A ou B. Teríamos liberdade para escolher entre escolher ou não. Assim eu não seria obrigado a votar em branco ou anular meu voto. Essa área que considero cinza, para muitos é sinônimo de covardia. Não vejo o voto branco como interessante. Nunca votei em branco. Mas já anulei. Na minha opinião o voto nulo não significa que eu não queira tomar posição - isso é votar em branco - mas que as opções a mim apresentadas não são boas o bastante.
Ah, mas não pode, você tem que tomar posição, nem que seja para "acabar com tudo isso aí." E enquanto isso, no Congresso, pouca ou nenhuma renovação. Contra-senso, né? Aqueles protestos todos serviram para quê mesmo? O cara que endividou o GDF logo depois da prisão do Arruda, foi eleito deputado federal. Ó? E gente muito boa ficou de fora, por causa das malditas coligações e legendas.
Odeio gente que espalha o terror dizendo que o Brasil vai virar Cuba. Nunca foram a Cuba, isso é certo. Miami é mais legal. Será que é fácil transformar o Brasil em Cuba? Se isso acontecesse, onde estariam os 48% dos que se dizem "brasileiros", deixariam mesmo que a coisa chegasse a esse ponto? Tão brasileiros que ao primeiro sinal de contrariedade, dizem que vão embora. Hmm. Eu fico e luto. Eu vivo o país, com suas belezas e mazelas. Eu trabalho para melhorá-lo. Eu vou cobrar daqueles que tem que ser cobrados. Não sou covarde por anular meu voto, mas não vou me anular por não ter votado em uma das opções. E não vou deixar de vigiar, fiscalizar, cobrar, trabalhar.
Odeio gente que espalha babaquices preconceituosas contra gays, pobres, negros, nordestinos. Vocês não me representam. Como se São Paulo não estivesse coalhado de nordestinos. Como se esses mesmos nordestinos não tivessem ajudado - e ainda ajudam - a fazer de São Paulo o que é hoje. Vocês, por acaso, vão deixar de tirar suas férias nos Lençóis Maranhenses? Vão deixar de ir ao Carnaval de Salvador? Vão abrir mão das maravilhosas praias da Paraíba? E a Chapada Diamantina, desistiram de conhecer? Se vão, aproveitem e boicotem os restaurantes de comida nordestina. Tava cheio de carro com adesivinho do 45 no estacionamento do Mangai/Nau outro dia, aqui em Brasília. Se vão continuar com esse preconceito imbecil, então que o façam por completo. Nada mais de queijo coalho com carne de sol para vocês. Só coxinha.
E gente que vive no exterior há dezenas de anos decretando o fim do Brasil porque o governo continuou como está? Será que se o resultado fosse diferente essas pessoas todas voltariam para cá? Duvideodó. Muita gente saiu lá pelos idos de 94/95, não? Bem antes de "tudo isso que está aí" se instalar. E me lembro que em muitos lugares no exterior o resultado das urnas foi favorável ao "tudo isso que está aí". Vou reiterar algo aqui, se já não ficou claro: não estou tomando partido, não estou defendendo este ou aquele lado. Estou odiando os dois lados. E tenho amigos, familiares, conhecidos e colegas em ambos.
Durante esse tempo todo evitei tomar qualquer posição, fazer qualquer comentário no Facebook, preferi observar à distância, por mais que certos comentários me enojassem. Sim, enojassem. Preferi manter laços de amizade. Teve absurdos proferidos pelos partidários de ambos os lados. Cheguei a deixar de seguir uns e outros.
Mas sou considerado um pária, covarde.
Não estou mandando ninguém ir embora. Fiquem e lutem. Façam a sua parte, pois governo, qualquer que seja, deve ser para todos, inclusive para este "covarde" aqui.
Não estou postando fotos com a bandeira do Brasil de luto, em lágrimas. Essas pessoas já desistiram.
Eu não.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Jesus te ama

Ele vinha a duas dezenas de metros de uma faixa de pedestres. Notou o carro parado e imediatamente freou forte, parando bem ao lado do carro, antes da faixa, enquanto os olhos treinados escaneavam a faixa e a calçada. Um rapaz atravessava a faixa e outro preparava-se para fazê-lo, vindo da direita. Quando o segundo rapaz terminava de atravessar, ouviu o motorista do carro dizer-lhe algo. Com as viseiras do capacete fechadas e seu rosto parcialmente coberto, fez um gesto de "o quê?" com a cabeça e o motorista repetiu: "Jesus te ama", com uma expressão serena no rosto. O motociclista meneou a cabeça ligeiramente, "ok".
E assim partiram, quase juntos. A minivan na frente, com seus adesivos de frases religiosas. Logo atrás o motociclista, ainda sem entender o porquê daquela frase, no início da manhã. Será que o motorista diz isso para alguém todos os dias? Será que ele disse aquilo porque o motociclista respeitou a faixa? Ou disse porque o motociclista...bem, estava de moto? Mais do que a frase, aquele semblante sereno é que o acompanhou o dia todo. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Relutei muito para escrever sobre eleições. E a razão para isso é simples: não me acho capacitado para emitir opiniões e sou péssimo em debates e confrontações. Não seria um bom político ou um advogado. Admito que minha primeira reação é sempre acreditar no que leio por aí. E quando começo a ler opiniões refutando esta ou aquela posição, instala-se a dúvida. Quanto às "provas" apresentadas pelo defensores deste ou daquele candidato, elas mais atrapalham que ajudam. Pode ser um pouco de preguiça da minha parte - e provavelmente é - mas isso é outra história.
Olhando as coisas que são publicadas no Facebook, por exemplo, tenho amigos (ou contatos no FB) que defendem Dilma e o PT com a faca entre os dentes e sangue nos olhos. Lançam mão de gráficos, números, relatórios, pesquisas e opiniões "ilibadas" e ainda atacam sem dó os outros candidatos. Este é o ponto que me chama atenção: se seus números são irrefutáveis e as pesquisas tem pouca margem de erro, não bastaria rebater as afirmações/acusações dos adversários? Aparentemente não. Ataques, discussões acaloradas e "trocas de gentilezas" estão no cardápio diário. Petistas são os donos da verdade e não ouse contrariá-los.
Do outro lado tem os que são contra o PT e se dividem, basicamente, entre os eleitores do Aécio e da Marina. Os primeiros passam o tempo repetindo o que leem pela internet sem sequer ter a preocupação de verificar sua autenticidade - geralmente contra o PT, mas mais recentemente contra a Marina também, no caso dos aecianos. Isso será usado pelos petistas contra os psdebistas e assim dá-se continuação ao bate-boca. A poucos dias do pleito, Aécio ainda não tem plano de governo - apesar de afirmar que sabe o que está errado com o país e que sabe o que fazer para consertar. O cara já tinha sido considerado para a eleição passada e seu partido ainda assim não teve a capacidade de elaborar um plano de governo? Plano de governo, aliás, deveria ser de apresentação obrigatória quando do registro de candidatura para prefeito, governador e presidente. Para os que pretendem cargos no legislativo então, a zona é generalizada. Ninguém tem plataforma clara e a maioria dos candidatos às câmaras estaduais confundem suas atribuições com as dos candidatos à câmara federal. Sem falar que tem candidato a deputado federal cuja plataforma é lutar por esta ou aquela região. Esquecem que, eleitos, são deputados FEDERAIS, portanto tem que trabalhar para o povo brasileiro, sem distinção. Bem, viajei agora. Voltemos.
O pessoal do Aécio defende não sabe bem o quê, mas tudo o que eles  tem certeza é de que Dilma e PT tem que sair. O que é mais ou menos o que defendem os eleitores da Marina. Esse povo todo aí é o povo do "Deus Me Livre!". Dilma e PT? Deus me livre. Aécio? Deus me livre. Os apoiadores da Marina se acham os mais inteligentes, porque ela é a solução. Ela é mágica. Ela vai fazer e acontecer. Os eleitores do Collor também achavam a mesma coisa. Escolheram aquela que herdou uma candidatura e que não conseguiu ter seu novo partido aprovado (inédito isso, viu?). Tem pouca experiência, não fez um bom trabalho quando teve a chance e desce o pau nos outros dois. E leva pancada também. Muita. E apesar de tudo e sem ter muita certeza do porquê, escolheram-na como saída alternativa para "tudo isso que está aí".
Entendam que não estou aqui defendendo ou atacando este ou aquele candidato, nem gostaria que meus amigos se chateassem com minhas mal escolhidas palavras. Meu intuito é tão somente fazer uma pequena leitura do que vejo todos os dias nas redes sociais neste que é MEU espaço, ainda que eu permita um certo nível de abertura, pois qualquer um pode comentar aqui. Só me reservo o direito à censura, pois não admito comentários ofensivos. O espaço é democrático mas não é a casa da mãe Joana.
Tem coisas curiosas.  Petistas - ou dilmistas - adoram dizer que a Marina fala em renovação na política mas faz acordos e anda de mãos dadas com a velha política. Logo eles que quando chegaram ao poder há distantes doze anos, foram obrigados a fazer...chamemos de acordos - conchavo é palavra forte - com Sarney, Collor, Calheiros, para citar alguns mais notórios.
Marina fala da defesa do meio ambiente mas sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente foi, no mínimo, desastrosa.
O Aécio...correndo atrás. Batendo em todo mundo e levando de todo lado.
Vejam que telhado de vidro todo mundo tem. E pedra na mão também. Admitir isso é outra história.
Assim, rolando a página inicial do FB, dou de cara com um festival de verdades tão grande quanto o festival de bobagens. De todos os lados. Discussões e ofensas abundam. Desde que começaram a pipocar tenho evitado curtir, comentar e compartilhar posts políticos. A gente discute no bar, na roda de amigos, mas meu voto ainda é meu. Sei que este governo fez coisas boas, assim como o anterior. Mas ambos também fizeram merdas. Eu tomo como exemplo o governo de Agnelo Queiroz no DF. Votei no cara. Era o melhor candidato. Votaria nele de novo? Não. E não porque acredite que tenha feito uma administração ruim, mas porque poderia ter feito uma muito melhor. Verdade que Agnelo pegou o DF combalido e endividado e teve que se virar porque teria Copa das Confederações e Copa do Mundo pela frente. Deixou a desejar em várias frentes. Ainda assim, no fim de seu governo, tem obras em andamento e obras em fase inicial. E muita gente não vê isso. Mas seu governo não foi o que poderia ter sido e por isso não leva meu voto este ano. Fiz uma análise racional. Há quem discorde de tudo o que escrevi aqui. Mas quer saber? Vá reclamar com o padre.

IBILCE: 60 anos da minha Alma Mater

Escrevi a crônica abaixo, a pedido da amiga Nilce, atual editora da revista Notícias Ibilce, por ocasião dos 60 anos do nosso querido In...