terça-feira, 29 de setembro de 2015

Alegrias e agruras de morar em hotel

Há algum tempo um conhecido disse que seu sonho de consumo era viver em hotel, sem as preocupações que normalmente acompanham os meros mortais que alugam ou são donos dos imóveis em que residem: IPTU, água, luz, manutenção em geral. Quebrados que éramos concordamos que de fato era um belo sonho,
Meu recorde é de 30 dias morando em hotel, recorde esse que será quebrado ao fim desta viagem, com 95 dias. Assim, acho que estou mais que capacitado para dar um, digamos, parecer sobre o assunto. E o papo é o seguinte: se você for abastado o suficiente para morar em um bom 5 estrelas, vai fundo. Se no máximo conseguir um bom 4 (são poucos. Essa estrela a menos faz uma diferença...), talvez a viagem não vá ser assim lá tão suave. E isso levando em consideração que você vai morar num lugar minimamente interessante.
As duas primeiras semanas são normais. Você vai estar se acostumando com a nova cidade/país de qualquer jeito, então alguma trepidação já é de se esperar. Quando digo trepidação quero dizer diarreia mesmo.
Na terceira semana tudo vai começar a ficar esquisito. Você vai começar enjoando do café da manhã e vai fazer malabarismos para não ficar sem comer, afinal seu pacote inclui o breakfast. Isso é ainda pior se sua morada for o tal 4 estrelas que não se preocupa muito em variar o buffet, a não ser em alta temporada. Sorte a sua, hein?
Adoro ovos mexidos e já não consigo sequer olhar para os danados. Se a cidade tiver boas e acessíveis opções você não corre o risco de enjoar da comida do restaurante do hotel. Sim, no singular, já que estamos considerando nosso amigo de uma estrela a menos. Se sua morada for o de 5, pare aqui e vá comer uma lagosta, pô.
Com o tempo as pequenas escorregadelas do hotel vão começar a lhe irritar cada vez mais. Camareiras que passam duzentas vezes pelo seu quarto naquele exato dia em que você quer mais é se afundar nos travesseiros, por exemplo. Sim, porque não adianta colocar aquele aviso de "não perturbe"na porta, elas não enxergam aquele papelucho e mandam ver na campainha ou direto na porta. Não satisfeitas vão passar o cartão e abrir a porta que, se você foi precavido, passou a correntinha/trinco de segurança. Se não, ela vai ter um susto ao ver você ali expostão.
Vez por outra elas - ainda estou falando das camareiras -  vão arrumar o banheiro e esquecer de repor a toalha ou o tapete, ou qualquer outra coisa.
Pode ser que você queira economizar e usar o mínimo possível da lavanderia do hotel, que pode não ser lá essas coisas, meu caso. Aí dia sim, outro também, vai baixar a Zildilene em você e seu quarto vai ficar repleto de coisas molhadas penduradas na frente do ar-condicionado. Depois tem que passar, se você tiver a sorte de ter tábua e ferro no seu quarto. No seu 5 estrelas eles jamais deixarão que você faça isso.
A propósito, estou começando minha quarta semana morando num hotel. 4 estrelas. Mais ou menos mixurucas. Num lugar não muito interessante.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Posé, posé, bon bagai!

Duas semanas, alguns desarranjos intestinais, uma gripe, muita tosse e dores-de-cabeça depois da última postagem. E muito trabalho também.
A última semana foi especialmente difícil por causa dessa gripe que me deu e de suas consequências que só agora logro mitigar. Quero ter algo parecido com uma rotina, mas enquanto o corpo não se entender com a água, comidas diferentes, horários desregulados, não vou conseguir. Como não tenho conseguido me exercitar com regularidade, o corpo também começa a sentir a falta da atividade física regular, e uma coisa puxa a outra e a vida segue difícil.
A frase que dá título a este post, aliás, quer dizer "beleza, gente boa!", em creole. "Posé" ouve-se o tempo todo. O povo e amigável, como já disse, mas há uma desconfiança generalizada em relação a brancos. E preconceito de negros e mulatos em relação a si mesmos, com os últimos se achando melhores que os primeiros e por aí vai. Nota-se pelas ruas que cidadãos de pele mais clara são mais abastados. Mas como todo pais em situação como a do Haiti, dizer que há um padrão é simplificar demais.
Choca ver carros caríssimos pelas ruas em contraste com as latas-velhas que circulam pelas mesmas ruas. Imagino como deve ser ofensivo para os mais desvalidos, num país que parece ter tão pouco a oferecer. Igualzinho a um certo outro país que conheço, aliás.
Postes de luz e semáforos que funcionam com energia solar
Voltando ao preconceito em relação aos brancos, a tese mais recente dá conta de que deve-se ao tsunami humanitário que tomou conta do país desde o terremoto. Há muitas organizações sérias, mas em meio a essas há as oportunistas. Os caras levantam milhões em nome dos desabrigados, gastam uma fração com o objetivo final - a tal ajuda humanitária - embolsam milhões e se mandam para colher os louros em casa. Eu também ficaria com um pé atrás.
Testando a função HDR do telefone


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Mais um país, mais uma missão

Estou na estrada de novo, crianças. O trabalho me trouxe desta vez ao Haiti, pedaço de ilha no Caribe que já passou por poucas e boas, como ditaduras sangrentas e catástrofes naturais. Já esperava encontrar desorganização, miséria e confusão. Como qualquer país pobre, há um lado mais colorido na paisagem cinza. Estamos em Petion Ville, bairro mais abastado da capital Porto Príncipe. Aqui as ruas estão em melhor estado, há casas muito bonitas e grandes espalhadas pelos morros - e dividindo esses morros com favelas, isso lembra algo? - e muitos, muitos SUVs. A proporção é de um automóvel normal para uns cinquenta SUVs. A razão disso? Pode ser a geografia da região, pode ser o fato de as ruas estarem destruídas, ou simplesmente porque são veículos mais indicados para o local. Como em muitos países na mesma situação, há uma parcela da população que não parece passar pelos mesmos problemas, que ostentam seus carrões enormes e novinhos para lá e para cá, parecendo ignorar as massas de gente que vende qualquer coisa na rua para continuar vivendo.
O haitiano, colonizado por franceses, fala francês, mas dá preferência para o creole, língua que mistura o francês com dialetos locais e soa como francês mal faladoÉ um povo simpático, trabalhador. A impressão que se tem pelas ruas da cidade é que ninguém fica ali à toa, todo mundo está se virando como pode. Uma vez até agora vi uma mulher com os filhos a tiracolo pedindo esmola. Isso não quer dizer que não haja miséria, ela é patente. A foto acima ilustra bem: no morro, mais à esquerda, casas modernas e grandes dividindo espaço com a favela. Nessa foto não é possível ver, mas a cor dessas casas é cinza, pois foram reconstruídas recentemente. Há uma porção da favela que é toda colorida.

Casa em estilo "gingerbread" defronte ao meu hotel

Há tantas motos quanto há SUVs. Na grande maioria são táxis. Capacete é algo raro de se ver e estão quase sempre desafivelados. Dizem que há algum tempo o governo tentou tornar obrigatório o uso do equipamento. Não deu certo.
Comunicações parecem funcionar bem e vê-se muitos carros de organismos internacionais e ONGs que trabalham na reconstrução do país. Usar cartões de crédito e de débito aqui não é o problema que foi em Cuba. No lobby do hotel em que estou hospedado pude realizar um saque de minha conta no Banco do Brasil de Miami sem o menor problema.
Já fui a um supermercado nesta região - há vários deles - e não há escassez de qualquer coisa.
Perdi minha virgindade com relação a malas perdidas. Desde que comecei a viajar por esse mundão, no longínquo 1995, isso nunca tinha acontecido comigo. Uma de minhas malas não chegou, mas a American Airlines, que presta um servicinho horroroso nas linhas entre o Brasil e os EUA e o Caribe, com aviões velhos e staff de segunda linha, encontrou a mala e a enviou no voo seguinte. Só não entregaram no Hotel, o que seria normal.
Bem, essas são as primeiras impressões. Mais em breve, pois ficarei por aqui mais 93 dias.
Inté.

IBILCE: 60 anos da minha Alma Mater

Escrevi a crônica abaixo, a pedido da amiga Nilce, atual editora da revista Notícias Ibilce, por ocasião dos 60 anos do nosso querido In...